terça-feira, 31 de julho de 2012

MPF: Cachoeira teria usado mulher para comandar negócios da prisão


A mulher de Carlinhos Cachoeira, Andressa Mendonça, pode estar agindo como membro da organização criminosa do bicheiro, afirmaram na tarde desta segunda-feira, em Goiânia, os procuradores Daniel de Resende Salgado e Léa Batista de Oliveira. "A nossa desconfiança é de que ela passou a ser uma mensageira do 'capo' do grupo criminoso organizado, do Carlos Augusto Ramos", disse Daniel Salgado. "É plenamente possível ele (Cachoeira) comandar (a organização) mesmo preso, através dela e de outras pessoas", completou Léa, em entrevista coletiva.
Andressa teve de prestar depoimento na Polícia Federal hoje, sob suspeita de chantagear o juiz do caso da operação Monte Carlo, Alderico Rocha Santos, oferecendo livrá-lo da publicação de um dossiê na revista Veja. Os procuradores admitiram o objetivo de "frear o fluxo de informações" no pedido para que a Justiça decretasse medida cautelar impedindo a mulher de Cachoeira de manter contato com outros membros da quadrilha do bicheiro.
"Ela também está impedida de estar no prédio da Justiça Federal e de ter contato com o juiz", disse Daniel. Os representantes do Ministério Público Federal (MPF) tentam, em grau recursal, restabelecer a prisão provisória e revogar a soltura dos outros réus, pelo mesmo motivo. Sobre a fiança de R$ 100 mil que Andressa terá que pagar, o procurador foi irônico: "É um quinto daquilo que ela teria gastado para decoração da residência dela", disse.
Léa Batista confirmou que Andressa já está sendo investigada por suspeita de atuar como laranja de Cachoeira em pelo menos um negócio, envolvendo a compra de uma fazenda entre Luziânia e Santa Maria, a 100 km de Brasília e orçada em R$ 22 milhões. "Requisitamos abertura de inquérito na quarta-feira, mas, como está sob investigação, não podemos fornecer maiores detalhes", disse. Hoje, após a suposta chantagem ao juiz, o MPF pediu a instauração de outro inquérito, agora para apurar o crime de corrupção ativa por parte de Andressa.
Segundo os procuradores, as investigações já haviam encontrado indícios de que Andressa sabia das atividades do grupo de Cachoeira. "Havia algumas informações nesse sentido, mas que não estavam ainda claras. Conseguimos, a partir das buscas e apreensões, desvelar um pouco mais a potencial participação dela no grupo e, a partir daí, foi requisitada a abertura de inquérito policial", disse Daniel. O MPF também investiga se há bens no nome de Andressa que são incompatíveis com a renda pessoal dela.
Carlinhos Cachoeira 
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.
Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram diversos contatos entre Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (GO), então líder do DEM no Senado. Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais, confirmou amizade com o bicheiro, mas negou conhecimento e envolvimento nos negócios ilegais de Cachoeira. As denúncias levaram o Psol a representar contra Demóstenes no Conselho de Ética e o DEM a abrir processo para expulsar o senador. O goiano se antecipou e pediu desfiliação da legenda.
Com o vazamento de informações do inquérito, as denúncias começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas, o que culminou na abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Cachoeira. O colegiado ouviu os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, que negaram envolvimento com o grupo do bicheiro. O governador Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro, escapou de ser convocado. Ele é amigo do empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta, apontada como parte do esquema de Cachoeira e maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos.
Demóstenes passou por processo de cassação por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Casa. Em 11 de julho, o plenário do Senado aprovou, por 56 votos a favor, 19 contra e cinco abstenções, a perda de mandato do goiano. Ele foi o segundo senador cassado pelo voto dos colegas na história do Senado.

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