Infectologista
alerta que boca de pessoa com infecção em fase aguda é porta de transmissão de
doenças
Imagem ilustrativa
No beijo,
as pessoas trocam em média 250 vírus e bactérias. A infectologista Nilma Maria
Porto alerta que, se a pessoa estiver com alguma infecção em fase aguda, o ato
pode se transformar em porta de transmissão de doenças, apenas pela saliva. A
mais comum é a mononucleose infecciosa – causada pelo vírus Epstein-Barr –,
mais conhecida como doença do beijo.
“A mononucleose é tão comum, que cerca de 90% das pessoas têm e não sabem.
Porém, ela só é contagiosa quando está na fase aguda”, explicou. Ela é
transmitida pela saliva e, na primeira infecção, o vírus contamina o tecido
linfóide e ataca os linfócitos. Na maioria dos casos, a mononucleose é
assintomática e, quando há sintomas, eles são confundidos com os de uma virose
comum, como febre, tosse e garganta inflamada. Segundo Nilma, se a pessoa tiver
predisposição, o vírus pode causar câncer na garganta ou linfoma.
Além disso, também entram na lista das doenças passadas pelo beijo as gripes,
os resfriados, as faringites, as laringites, as amigdalites e até tuberculose e
meningite. Esta última, por exemplo, infectou pelo menos 105 pessoas no ano
passado, conforme registro de notificações do Núcleo de Doenças Transmissíveis
Agudas da Secretaria de Estado da Saúde (SES). Em 2011, foram 133 casos. “No
caso da meningite, o tipo transmitido pelo beijo é a bactéria meningococos.
Algumas pessoas têm essa bactéria na boca e nelas é assintomático. Se a outra
pessoa tiver pré-disposição ou estiver com o sistema imunológico frágil, pode
se contaminar”, informou Nilma.
Hepatite pode levar à morte
Doenças mais graves e incuráveis também são transmitidas pela saliva. É o caso
da hepatite B, doença que provoca inflamações no fígado. Em alguns casos, ela
pode evoluir para uma hepatite fulminante e matar em poucos dias. Nos três
primeiros meses do ano passado, segundo informações da SES, foram registrados
22 casos de hepatite B na Paraíba. O ginecologista Eduardo Sérgio explicou que
a doença é muito mais contagiosa que a Aids, por isso é mais fácil de adquirir.
Em pessoas com alimentação desregrada, imunidade baixa e predisposição física,
a hepatite B pode evoluir para uma hepatite fulminante – condição em que há uma
rápida deterioração do fígado – podendo matar em poucos dias se não for
tratada, alertou Marta Deguti, hepatologista do Centro de Referência em
Gastroenterologia do Hospital 9 de Julho em São Paulo. Segundo explicou, a
hepatite B aguda é consequência de uma intensa reação inflamatória em resposta
à infecção do fígado. Os sintomas iniciais são os mesmos das outras hepatites
(mal-estar, náuseas, febre leve, dor abdominal, mas incluem ainda urina escurecida
e olhos amarelados). Também podem ocorrer problemas na voz, dificuldade para
dormir e de raciocínio, irritabilidade e alterações do comportamento.
A hepatologista alerta que as pessoas precisam interpretar e levar a sério os
sinais do corpo e ressalta que cada minuto é essencial para evitar o óbito. O
tratamento da doença requer internação e cuidados intensivos com medicamentos
e, em até metade dos casos, a necessidade imediata de transplante de fígado.
Riscos de pegar DSTs e Aids aumentam
Durante o Carnaval, os órgãos ligados à saúde aumentam a distribuição de
camisinhas para prevenir a transmissão de Doenças Sexualmente Transmissíveis
(DSTs), principalmente a Aids. A diretora do Hospital Clementino Fraga, em João
Pessoa, Adriana Teixeira disse que, no Carnaval, as chances de contrair uma DST
aumentam porque as pessoas estão na brincadeira e não se preocupam com a
prevenção. “No Carnaval, ninguém é de ninguém. Eu sempre ressalto que o melhor
é prevenir e indico que as pessoas brinquem o Carnaval com responsabilidade”,
afirmou. A responsabilidade não é a palavra-chave das festas que envolvem
jovens , principalmente, as do período carnavalesco. É comum em blocos, rapazes
fazerem barreiras e exigirem beijos de meninas, em troca da liberação da passagem.
Tem também as apostas e competições para ver quem beija mais durante a folia.
Além disso, tem os carnavais mais violentos, onde ninguém pede, beija e pronto.
Sífilis: rara, mas possível
Outra doença a que as pessoas também estão susceptíveis através do beijo é a
sífilis, ainda que muito raramente, havendo microlesões na boca das duas
pessoas. “É necessária uma porta de saída e uma porta de entrada. No caso da
sífilis (doença sexualmente transmissível), é muito raro acontecer através do
beijo, mas é possível que, em uma das fases da doença, apareçam feridas no
entorno da boca, que é quando pode haver a contaminação, se a outra pessoa
tiver uma microlesão no momento do beijo”, disse o ginecologista Eduardo
Sérgio. Essa microlesão pode ser uma afta ou qualquer outra pequena ferida,
provocada, por exemplo, por uma mordida acidental na mucosa da boca.
HPV e herpes
O beijo também pode ser um vilão se considerados males como o vírus
papilomavirus humano (HPV). Da mesma forma que na sífilis, a doença precisa de
uma porta de saída – transmissora da doença –e uma porta de entrada –
receptora. Conforme explica a infectologista Nilma Maria Porto, o risco de
contrair a herpes é quando existem lesões na pessoa portadora, ainda que não
sejam feridas. “As vesículas, que são bolhinhas com água, oferecem risco por
causa do líquido, que é o que transmite o vírus”. A outra pessoa pode acabar se
contaminando através da mucosa da boca.
O HPV também atua da mesma maneira, ainda que de forma mais rara, tendo em
vista que o contato sexual, nas regiões genitais e anais, sejam os maiores
perigos. Ainda assim, o vírus encontrado na laringe (cordas vocais) e no
esôfago pode causar câncer de laringe e da cavidade oral. Segundo o Instituto
Nacional do Câncer (Inca), os casos desse tipo de neoplasia vêm crescendo no
País. No ano passado, a estimativa foi de 6.110 novos casos de câncer da
laringe e 9.990 novos casos em homens e 4.180 em mulheres de câncer da cavidade
oral.
Sem motivo para pânico
Apesar de todos os alertas, o ginecologista Eduardo Sérgio ressalta que não
existe motivos para pânico e nem para deixar de beijar, mas destaca que são
importantes alguns cuidados, como evitar beijar se estiver com doença em fase
aguda, a exemplo da herpes com as feridas abertas. Para contrair as doenças, é
preciso estar em fase aguda da enfermidade – momento que é altamente contagioso
– e ter microlesões na boca das duas pessoas. “É possível que a pessoa esteja
em fase de transmissão e a outra pessoa esteja com a imunidade baixa e as duas
tenham pequenas fissuras na boca e na mucosa. É raro, mas no beija-beija, a
mucosa da boca vai ficando lesada e uma dessas pessoas pode estar contaminada.
O álcool também faz as pessoas perderem a noção de proteção”.
Cuidado com os dentes
Os problemas bucais também podem passar de boca em boca pelo beijo. O
especialista e mestre em Periodontia, Milton Sabino, citou problemas como
gengivite – inflamação nas gengivas – como um desses problemas. A doença –
causada por bactéria – é caracterizada pelo sangramento da gengiva e, caso não
seja tratado, pode se transformar em periodontite, causando coleções purulentas
(pus) na boca, sangramento e mau hálito. A cárie, que também é causada por
bactérias, pode ser transmitida pelo beijo, assim como as faringites,
laringites e amigdalites.
A candidíase é uma doença bastante comum cujo contágio pode ser pelo beijo,
informou Milton Sabino. Causada por fungo, a forma mais comum da doença é o
sapinho. O dentista Anderson Bernal ainda alerta para o citomegalovírus, da
família do herpesvírus, que apresenta sintomas parecidos com os da
mononucleose, ou em alguns casos pode ser assintomática. Em casos mais graves
pode comprometer o sistema digestivo, o sistema nervoso central e a retina de
algumas pessoas.
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